domingo, 29 de janeiro de 2017

Ensaios sobre iluminação artificial ( parte 1 )






















The Walkers (em breve)

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
- Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. 
(...)
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsicência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo- sei lá salvo o quê...
(...)
Ó madrugada, tardas tanto.... Vem....
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

( Álvaro de Campos )






terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Ensaios sobre profundidade de campo ( parte 3 )




















Ensaios sobre profundidade de campo ( parte 2 )










Ensaios sobre profundidade de campo ( parte 1 )

Neste exercício foi proposta a exploração criativa da profundidade de campo, articulando os fatores que condicionam com o controlo do movimento, dando especial atenção à representação da perspetiva e à composição geométrica das fotografias.

A abordagem era livre, mas tratando-se de um trabalho em que se deve dar especial atenção à representação da geometria e da perspetiva, aplica-se de forma mais evidente à paisagem urbana e às fotografias de arquitetura, quer em exteriores, quer em interiores, sendo a presença do elemento humano fundamental para "animar" a fotografia e dar-lhe movimento.

A profundidade de campo em fotografia é o espaço de nitidez entre os planos de uma imagem. Estará nítido, por definição, o plano para que se fez a focagem, mas também podem estar nítidos outros planos para além e para aquém dele.

Deve-se considerar os fatores que influenciam a profundidade de campo:

- Quanto menor o diâmetro do diafagma, maior a profundidade de campo.
- Quanto mais longa for a distância focal da objetiva utilizada , menor a profundidade de campo.
- Quanto mais afastado estiver o objeto a fotografar, maior a profundidade de campo.

















quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sentido e Destino da Arte

Antes de mais, bom ano a todos os leitores deste humilde blog. Infelizmente, não tenho tido tanto tempo quanto isso para dedicar ao site ( pelos vistos , nem para dar um feliz natal ,ou feliz ano novo ) , mas de vez em quando ainda lembro de postar alguma coisa por aqui. 

Para começar bem o ano, aqui vai uma profunda reflexão sobre o tema mais falado deste blog : A arte . 

Este excerto foi tirado do livro " Sentido e destino da arte, de René Huyghe " e acho que é uma das melhores respostas a clássica questão : O que é arte ? 

A arte é uma função essencial do homem, indispensável ao indivíduo e às sociedades e que se lhes impôs como uma necessidade desde as origens pré-históricas. A arte e o homem são indissociáveis. Não há arte sem homem, mas talvez igualmente não haja homem sem arte. Por ela, o homem exprime-se mais completamente, portanto, compreende-se e realiza-se melhor. Por ela, o mundo torna-se mais inteligível e acessível, mais familiar. É o meio de um perpétuo intercâmbio com aquilo que nos rodeia, uma espécie de respiração da alma bastante parecida com a física, de que o nosso corpo não pode prescindir. O ser isolado ou a civilização que não têm acesso à arte estão ameaçados por uma impercetível asfixia espiritual, por uma perturbação moral.

Para bem compreender o papel da arte, não é inútil interrogarmo-nos sobre o que caracteriza o homem, o que o distingue essencialmente do animal, o que lhe dá a posição cimeira na cadeia dos seres, o que faz a sua dignidade e nobreza. O animal não experimenta em si senão impulsos mais ou menos imperiosos, e obedece-lhes: são os instintos, os apetites, os desejos, os reflexos que o dono lhe ensinou. Para ele, agir é sentir – sentir a própria natureza.

O homem quer mais: não lhe basta agir, quer agir “com conhecimento de causa”, como ele próprio diz. Quer conhecer e julgar as motivações dos seus atos, a “razão” das coisas e dos factos que o rodeiam e se repercutem nele. Daqui derivou, no sentido mais amplo do termo, a ciência, e mais particularmente a do passado: a história.

Mas, para que serve conhecer, se não é para agir sobre o que existe, agir sobre o que há de existir? Construir o presente e o futuro? Mas de que lhe serviria conquistar o poder, se fosse apenas para o empregar ao acaso? Temos que saber o que queremos, escolher o que queremos. Ora, escolher implica que julguemos o que é bom e o que é mau, o que é belo e o que é feio. Assim, a esta primeira faculdade própria do homem, o conhecimento lúcido, acrescenta-se outra: o sentido da qualidade, o desejo de melhorar o mundo e de nos melhorarmos. A moral e a arte, a ética e a estética fundaram-se ao mesmo tempo. Estes dois domínios vão a par, às vezes até se penetram mutuamente, pelo menos, na zona fronteiriça; e já aconteceu terem-se confundido.

Mas, se a moral conduz as nossas ações, a arte aplica-se às nossas criações: Nos dois casos, é para lhes conferir a qualidade que só o homem tem o dom de conceber espontaneamente e de buscar lucidamente.

Esta mistura de perspetivas exatas e de graves lacunas, suscitando o mal-entendido, merece que nela meditemos para tirarmos uma conclusão quase sempre válida: não é suficiente descobrir uma verdade; é necessário ainda que o espírito seja bastante forte perante ela para não se banalizar, para não a tomar como interpretação única, mágica, de toda a explicação. A realidade viva e, sobretudo, a realidade psicológica, a do homem, que intervém em primeiro lugar na arte, são infinitamente complexas. É inútil, é perigoso pretender reduzi-las a uma única perspetiva. É o orgulho inato de todos os doutrinadores, depressa transformado em sectarismo. A verdade parcial confunde-se muitas vezes com o erro.

Quando o homem de um determinado tempo e lugar cria a sua arte, fá-lo em conformidade com a sua conceção do mundo, com as aspirações e condições da existência. A partir do momento em que esta arte foi constituída, em que produziu obras que se tornaram para todos num espetáculo permanente, também é verdade que o homem que a criou se torna independente daqui por diante. Com efeito, introduz na sociedade um conjunto de imagens cuja ação vai ser profunda e imprevisível. De tanto as contemplar, os contemporâneos dão-lhe tanto crédito como às realidades que vêm em qualquer parte. Por meio delas são moldados, transformados o aspeto do real e, por consequência, as maneiras de sentir, e até de pensar.

A obra de arte, mesmo quando não passa da simples projeção daquilo que o homem leva dentro de si, torna-se, no momento em que está organizada, acabada, uma realidade absolutamente nova, sem equivalente anterior; e ninguém saberá ainda determinar e definir os seus possíveis efeitos.

A arte é um dos raros meios de que um indivíduo dispõe para tornar percetível aos outros aquilo que o diferencia deles: o mundo dos sonhos, tormentos ou obsessões, cujo peso só ele suporta. Assim, de cada qual exprime o que se julga inefável: o seu segredo.
Mas a obra de arte não é apenas um simples espelho passivo, desempenha na nossa psicologia um papel ativo. As imagens criadas pela arte cumprem na nossa vida dois papéis muito diferentes quase opostos: ora nos impões e insinuam maneiras de sentir e de pensar; ora nos libertam, pelo contrário, de determinadas obsessões, de certas forças que trabalham o nosso inconsciente.

Assim, a obra de arte afeiçoa, modela os corações e os espíritos, marca-os com o seu cunho. Age como um condensador de vida interior que comunica aos homens a sua carga. Mas também é muito verdade afirmar que, por uma ação corolária, os liberta, ao mesmo tempo, de certas tensões interiores.

O homem pode levar consigo sonhos de pureza e de perfeição que não chegam a realizar-se na dececionante realidade. Se é artista, imprime-os, portanto, na imagem das suas obras; procura-os na dos outros, se é espectador. Chega assim a compensar as lacunas da vida e a dar uma espécie de existência ao que era necessário ao desenvolvimento do seu ser.

Há que chegar, portanto, à conclusão de que a arte, embora sofra a influência daquele que a produz e daquilo que a circunda, constitui apesar de tudo um mundo à parte; e este mundo tem leis próprias às quais obedece: são irredutíveis. Dissemos que a arte dependia, em certa medida da história geral, onde vem tomar o seu lugar e também da psicologia particular do artista que a criou: temos de admitir agora que semelhante a um organismo vivo deve também vergar-se às suas fatalidades interiores. Tem uma maneira de evoluir, de se transformar, que lhe é natural e obrigatória, e que se reproduz, semelhante, em todos os lugares e tempos.